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Especialistas debatem impacto da tecnologia nas práticas de alfabetização

Imds promove mesa redonda e analisa a importância de dados e evidências no planejamento da alfabetização em evento do Banco Mundial e FGV-EESP Clear
Publicado em 23/05/2022
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Na sexta-feira (03/06), o Imds organizou uma mesa redonda sobre o uso de evidências para orientar as melhores práticas no início da trajetória escolar. A conversa partiu de uma reflexão sobre como a literatura tem abordado o progresso nas práticas de alfabetização, o uso de tecnologias educacionais (ed techs) nos planejamentos de educação e sobre como incorporar essas evidências no desenvolvimento dos planos pedagógicos. O bate-papo terminou com a construção de um diálogo com a plateia, em que os profissionais responderam perguntas sobre as diferentes áreas do planejamento educacional.

O debate, que fez parte dos eventos da Semana de Avaliação gLOCAL 2022 – projeto do Banco Mundial com parceria com o FGV-EESP Clear – contou com a participação de Renan Sargiani – Presidente do Instituto Edube (Instituto de Educação Baseada em Evidências) e professor na Universidade Cruzeiro do Sul –, Nadine Heisler – sócia-fundadora da Domlexia, plataforma que traz soluções e conteúdos que facilitam a aprendizagem de alunos –, Flávio Riva – pesquisador do Imds –, e Paulo Tafner – Diretor-Presidente do Imds. Os quatro especialistas utilizaram indicadores desenvolvidos a partir de dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) e da ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização) como referências na hora de discutir a evolução do processo de alfabetização no Brasil.

A live foi iniciada com uma introdução feita por Paulo Tafner. O economista discutiu sobre a educação como um vetor crucial para a mobilidade social, abordou a má leitura como barreira à formação de habilidade, interpretando gráficos que foram produzidos a partir das pesquisas do instituto. O material reflete a influência do nível de escolaridade do responsável no desenvolvimento intelectual de crianças e jovens e coloca os dois pilares como diretamente proporcionais. Paulo termina sua fala destacando a importância do enfrentamento à heterogeneidade, através da construção de uma pedagogia equalizadora de diferenças dentro da sala de aula. A pedagogia deve ser tal que vise, desde o princípio, a redução das desigualdades de desempenho. Estas, segundo o economista, são geradas a partir de diferenças entre os lares. Crianças que têm acesso à qualidade familiar muito distintos acabam reproduzindo essas diferenças no ritmo em que cada um incorpora as competências adquiridas na escola. Caso o processo de alfabetização não seja modelado de forma a identificar as singularidades de cada criança e não seja inclusivo, a escola tenderá aumentar a distância no desempenho acadêmico dessas crianças. O processo pedagógico que orienta a alfabetização é, portanto, barreira ou alavanca para a mobilidade social, e isso depende do gestor público.

Renan Sargiani deu continuidade ao debate com uma argumentação que se desenvolve a partir da Agenda 2030 da ONU, que enfatiza, em seu quarto objetivo, a necessidade de promover uma educação mais inclusiva. O quão longe o Brasil se situa dessa meta? Segundo o pesquisador, os resultados da ANA 2016 mostraram que 55% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental estão em níveis insuficientes de leitura e 34% dos alunos em níveis insuficientes de escrita. O professor citou também, a partir dos dados colhidos pela PNAD 2021, que teria chegado a 2,4 milhões (um aumento de mais de 65% na pandemia), o número de crianças de 6 a 7 anos que não aprenderam a ler e escrever, e “que são, justamente, aquelas crianças mais pobres, que estão nas camadas mais vulneráveis, que não têm acesso a materiais como computadores, internet e celulares e ficam impedidas de terem acesso a aulas efetivas”, complementa Sargiani.

Nadine Heisler explicou o programa Escola Dom, que atua em 3 frentes – consciência fonológica, relação fonema-grafema e vocabulário – e é baseado em um jogo pedagógico online. Nessa simulação, o aluno passa por cinco mundos e a cada mundo que a criança completa, é liberado um desafio final, que testa se ela realmente reteve o aprendizado. O programa gera relatórios online para os professores, que fazem a gestão de aprendizagem através dos dados disponibilizados, e mostrou uma melhora de 56% nos índices de acerto em testes de consciência fonológica após 1,5 mês de aplicação. Flávio Riva debateu sobre o programa a partir da visão do pesquisador e abordou a literatura sobre o uso de tecnologias educacionais para formação de capital humano. O economista passou pelos princípios orientadores do programa – como o treino guiado por conteúdos estruturados embutidos em software e a aproximação lúdica ao processo de aprendizagem, que gera uma maior participação –, assim como a estratégia empírica por trás da colaboração entre o programa e a pesquisa, orientada pelo mapeamento realizado pelo Imds.

A mesa redonda terminou com os palestrantes respondendo perguntas da audiência. Em dado momento, surge o questionamento de como a família participa do processo de estimular as crianças no período de férias e as respostas funcionam como forma de trazer esse debate tão complexo para o seu princípio – as pequenas ações do dia a dia. “Muitos não sabem, mas as cantigas e parlendas tem a intenção de preparar a criança para a alfabetização”, relata Heisler. “Elas fazem com que a palavra seja formada com pequenos pedaços de sons – os fonemas.”

Participantes:

Paulo Tafner
Diretor-Presidente do Imds, é economista e doutor em Ciência Política (Iuperj/UCSD). Pesquisador associado da Fipe/USP. Foi coordenador do Grupo de Estudos Previdenciários do Ipea, foi subsecretário-geral de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro, diretor do IBGE e superintendente da Anac. Lecionou na UCAM e na PUC-SP.

Flávio Riva
Pesquisador do Imds, é bacharel e mestre em economia pela EESP e bacharel em ciências sociais pela FFLCH-USP. Foi consultor no Banco Mundial (EUA). Doutorando em administração pública e governo na EAESP. Trabalha atualmente com estruturação de avaliações de impacto em projetos-piloto.

Nadine Heisler
Head de mercado na Arcotech e sócia-fundadora na Domlexia, plataforma que traz soluções e conteúdos que facilitam a aprendizagem de alunos. Possui mais de 25 anos de experiência em educação e treinamento. Coordenou a Vertical Educação da Acate. Sua formação inclui passagens pela Unicamp, ESPM, Penn University, e University of London.

Renan de Almeida Sargiani
Presidente do Instituto Edube e professor na Universidade Cruzeiro do Sul, é pós-doutor em Psicologia (USP) e em Educação (Harvard GSE), e Doutor em Psicologia (USP). Foi consultor da Unesco, coordenador-geral no MEC e presidente-científico do Painel Nacional de Especialistas em Alfabetização, Literacia.