Bolsas Integrais para o Ensino Médio para Jovens de Baixa Renda em Gana
Bolsas Integrais para o Ensino Médio para Jovens de Baixa Renda em Gana
Qual era o objetivo?
Reduzir as barreiras financeiras ao acesso e à conclusão do ensino médio entre jovens de baixa renda que haviam sido admitidos em escolas públicas, mas não conseguiam se matricular por falta de recursos.
Onde e quando?
A intervenção foi implementada em Gana, a partir do ano letivo de 2008–2009, em 54 distritos rurais de cinco regiões do país. Participaram jovens admitidos em 177 escolas públicas de Senior High School (SHS) que atendiam estudantes não residentes.
Os jovens já haviam sido aprovados no exame necessário para ingresso no ensino médio e recebido uma vaga em uma escola pública, mas não tinham se matriculado no início do ano letivo. Entre os estudantes inicialmente elegíveis, 95% indicaram dificuldades financeiras como a principal razão para não terem ingressado na escola.
A intervenção foi implementada pela Innovations for Poverty Action (IPA) em parceria com as escolas participantes e o Ghana Education Service, órgão responsável pela execução das políticas educacionais do Ministério da Educação de Gana.
Como era o desenho?
A bolsa cobria integralmente as mensalidades e demais taxas escolares de estudantes não residentes durante os quatro anos previstos para o ensino médio naquela coorte. O pagamento era feito diretamente às escolas e incluía as taxas regulares, contribuições escolares e o exame final do ensino médio, o WASSCE.
Os estudantes permaneciam responsáveis pelos custos de materiais escolares, transporte e alimentação. Para um aluno que concluísse os quatro anos, o valor médio desembolsado pela bolsa correspondia a aproximadamente US$ 480.
Participaram 2.064 jovens, com idade média de aproximadamente 17 anos. Após a realização de uma pesquisa de baseline Situação inicial observada antes do início de uma política, programa ou intervenção. A baseline serve como ponto de referência para comparar mudanças ao longo do tempo e avaliar se os indicadores de interesse se alteraram após a implementação da intervenção. Em avaliações de impacto, costuma reunir informações sobre os participantes e, quando possível, sobre o grupo de comparação antes do tratamento., os estudantes foram divididos aleatoriamente entre:
- 682 jovens que receberam a oferta de uma bolsa integral;
- 1.382 jovens que não receberam a bolsa e formaram o grupo de comparação.
A aleatorização foi feita no nível individual e estratificada por distrito, escola de ensino médio, escola anterior, gênero e ano de realização do exame de conclusão do ensino fundamental.
Os participantes foram acompanhados regularmente até 2023, quando tinham em média cerca de 32 anos. O acompanhamento permitiu observar tanto os efeitos sobre os próprios jovens quanto, posteriormente, sobre seus filhos.
O que aprendemos com o monitoramento e avaliação?
Foram documentadas as seguintes evidências sobre as bolsas integrais para o ensino médio:
- a bolsa aumentou fortemente a escolaridade:
- a conclusão do ensino médio passou de 44,6% no grupo de comparação para 72,6% entre os beneficiários, uma diferença de aproximadamente 28 pontos percentuais O efeito de um programa em termos percentuais (%) é diferente do efeito do programa em pontos percentuais! Por exemplo, se uma variável binária teria média de 10% na ausência da iniciativa, um impacto de 5 pontos percentuais representa um aumento de 50% (=5/10). [1];
- em média, os jovens acumularam 1,26 ano adicional de escolaridade [1];
- o maior acesso à escola também se traduziu em aprendizagem:
- os beneficiários apresentaram desempenho cognitivo 0,16 desvio padrão maior, com ganhos em Matemática e leitura [1];
- a bolsa aumentou o ingresso e a conclusão do ensino superior, mas esses efeitos se concentraram nas mulheres:
- em 2023, elas tinham probabilidade 13,8 pontos percentuais maior de já terem ingressado no ensino superior e 10,8 pontos percentuais maior de tê-lo concluído [1];
- entre os homens, não foram encontrados efeitos estatisticamente significantes Chamam-se de estatisticamente significantes as estimativas de impacto que são distinguíveis de 0, após incorporadas à análise as incertezas associadas à generalização para outras amostras de indivíduos. [1];
- os efeitos sobre o mercado de trabalho demoraram a aparecer e também se concentraram nas mulheres:
- entre as mulheres, a bolsa adiou a formação familiar:
- houve redução de 7 pontos percentuais na probabilidade de já ter engravidado em 2013, explicada principalmente por menos gestações não planejadas, além de menor probabilidade de ter iniciado uma união nos anos seguintes [2];
- os filhos das mulheres beneficiárias apresentaram maior sobrevivência:
- a mortalidade até um ano caiu aproximadamente pela metade, e também houve redução semelhante da mortalidade até três anos [2];
- também foram observados ganhos de desenvolvimento cognitivo na geração seguinte:
- aos cinco anos, os filhos das mulheres beneficiárias apresentaram desempenho 0,24 desvio padrão maior e, aos sete anos, 0,25 desvio padrão maior, com ganhos em linguagem, Matemática, raciocínio espacial e funções executivas [2];
- os efeitos intergeracionais parecem estar associados sobretudo à maior escolaridade das mães e a mudanças em práticas de cuidado e estímulo infantil; não foram encontrados ganhos equivalentes entre os filhos dos homens beneficiários [2].
Em síntese, eliminar os custos diretos do ensino médio aumentou substancialmente a escolaridade e a aprendizagem de jovens de baixa renda. Os efeitos de longo prazo foram especialmente fortes entre as mulheres, para quem houve maior acesso ao ensino superior, emprego público e rendimentos. A intervenção também produziu efeitos intergeracionais relevantes, com menor mortalidade infantil e melhor desenvolvimento cognitivo entre os filhos das mulheres beneficiárias.
Quais as fontes da informação?
- Duflo, E., Dupas, P., & Kremer, M. (2024). The Impact of Secondary School Subsidies on Career Trajectories in a Dual Labor Market: Experimental Evidence from Ghana. CEPR Discussion Paper No. 19344.
- Duflo, E., Dupas, P., Spelke, E., & Walsh, M. (2026). Intergenerational Impacts of Secondary Education: Experimental Evidence from Ghana. American Economic Review, 116(9), 3586–3621.
