À medida que os indivíduos envelhecem, as diferenças diminuem. Aos 60 anos, a diferença entre a esperança de vida de um homem negro de Alagoas e de uma mulher branca catarinense chega a 4,83 anos. Aos 80 anos a diferença é de apenas 1,4 anos. Segundo o estudo, essa distância sintetiza a sobreposição de três dimensões históricas da desigualdade brasileira: as diferenças regionais, os diferenciais entre homens e mulheres e os hiatos raciais.
O trabalho mostra que os menores níveis de expectativa de vida da população negra concentram-se principalmente em estados do Nordeste e parte do Norte. Já os maiores níveis aparecem sobretudo no Sul e no Sudeste. Entre os homens negros, Alagoas apresenta o pior resultado do país. Entre as mulheres negras, o padrão territorial se repete, ainda que com níveis absolutos mais elevados.
O estudo também identificou que os “gaps raciais” — diferença de expectativa de vida entre brancos e negros — variam significativamente entre os estados brasileiros. Pernambuco apresentou a menor diferença observada, de 3,38 anos, enquanto Roraima registrou a maior, de 8,47 anos. Na maior parte do país, porém, a distância está em torno de 4,5 anos. A pesquisa reforça ainda que a desigualdade racial na mortalidade não decorre de um único fator. Ela está associada a condições socioeconômicas, acesso desigual à educação, saneamento básico, água potável, saúde e exposição à violência.
No caso dos homens negros, a violência aparece como elemento central. Estudos anteriores do mesmo projeto mostraram que quase metade da diferença de expectativa de vida entre homens brancos e negros está relacionada às chamadas causas externas — especialmente homicídios e mortes violentas concentradas entre jovens de 15 a 29 anos. Os dados revelam que a mortalidade precoce nessa faixa etária exerce impacto desproporcional sobre a expectativa de vida da população negra masculina. Se não houvesse essa sobremortalidade por causas externas, a diferença de expectativa de vida entre homens brancos e negros poderia ser até três anos menor. Já entre as mulheres, o padrão é distinto. A maior contribuição para o diferencial racial concentra-se em doenças cardiovasculares, neoplasias e enfermidades respiratórias, sobretudo entre 35 e 59 anos.
Além dos resultados substantivos, o estudo chama atenção pela complexidade metodológica. Como o Brasil ainda não possui estatísticas oficiais plenamente consolidadas sobre mortalidade por cor em nível estadual, a pesquisa desenvolveu um sistema indireto de estimação capaz de combinar múltiplas bases de dados.
Foram utilizados registros do IBGE, dados do SUS, informações do Atlas do Desenvolvimento Humano e modelos demográficos desenvolvidos pelo Cedeplar/UFMG e pelo Imds. A metodologia passou por cinco etapas sucessivas de calibração e validação, buscando compatibilizar os resultados regionais com as estatísticas nacionais oficiais. Por isso mesmo, os resultados não devem ser interpretados como medidas observadas diretamente, mas como aproximações estatísticas construídas a partir de hipóteses explícitas e mecanismos rigorosos de validação.
Em média, mulheres vivem mais do que homens. Brancos vivem mais do que negros. Moradores do Sul e Sudeste vivem mais do que os do Norte e Nordeste. Quando essas dimensões se combinam, o resultado é um mapa demográfico marcado por contrastes extremos. Mais do que um retrato estatístico, o estudo sugere que expectativa de vida também é um indicador das oportunidades distribuídas pela sociedade. Em síntese, a longevidade no Brasil continua sendo determinada não apenas pela biologia, mas pelas desigualdades sociais acumuladas ao longo da vida.