Essa situação perdurou, com pequenas melhorias, até meados dos anos 1990, quando conseguimos universalizar o ensino fundamental e deixamos de assistir cenas lamentáveis de mães e pais passando madrugadas na fila da escola para tentar obter uma vaga para seus filhos. O Ensino Fundamental se expandiu de forma vertiginosa e praticamente 90 de cada 100 alunos passaram a completar o Fundamental I e quase 80 completavam o Fundamental II.
A barreira do médio, ainda que mais ampliada, continuou a ser um gargalo para boa parte do alunado que concluía o Fundamental II, de modo que apenas 30 em cada 100 alunos de uma coorte conseguiam completar o médio. Essa situação permanece a mesma, com pequenas variações, até nossos dias. O Ensino Superior expandiu e nesse aspecto a rede privada foi fundamental: ela absorveu 90% do crescimento da demanda e atualmente responde por 80% das matrículas.
Segundo o Censo da Educação Superior 2024, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), naquele ano o Brasil tinha 10.2 milhões de alunos matriculados no ensino superior, espalhados entre instituições públicas e privadas. Dessas matrículas, aproximadamente 50% estão na modalidade de EAD (ensino a distância) a qual tem sido objeto de relevante questionamento quanto à qualidade.
No entanto, em verdade a questão da qualidade está disseminada em todas as fases escolares. Os resultados de alfabetização são muito insatisfatórios e estão praticamente estagnados. Também nos anos finais do Fundamental, os resultados para Língua Portuguesa e Matemática revelam um quadro desanimador. No Ensino Médio, o último SAEB revela baixo desempenho em Língua Portuguesa e baixíssimo desempenho em Matemática. Menos de 10% dos alunos atingem nível considerado adequado nessa disciplina.
Essa baixa qualidade da educação tem impactos individuais e coletivos. No âmbito individual, impõe séria limitação ao emprego e renda, fazendo com que indivíduos jovens tenham poucas possibilidades de ascensão social; do ponto de vista coletivo, isso faz com a produtividade em nosso país seja baixa e tenhamos uma geração de riqueza e renda muito aquém da que poderíamos ter.
Um estudo do Imds revelou que, se a juventude brasileira tivesse a escolaridade da juventude chilena, a renda gerada pela geração seria 42% maior do que a atual. Se conseguíssemos nos igualar à escolaridade coreana, esse aumento seria de 72%.
Esse aumento de renda não pode ser medido apenas por sua dimensão monetária. Deve ser entendido também como limitação da mobilidade social e como oportunidades perdidas de superação estrutural da pobreza.
O foco na melhoria da educação no Brasil deve se constituir em pilar fundamental para o aumento da mobilidade social, a superação da pobreza e a redução da desigualdade. Programas de transferência de renda podem e devem cumprir papel crucial de alívio da pobreza, mas somente o aumento consistente e universal da qualidade da educação permitirá a superação estrutural dessas limitações.