Essa persistência é ainda mais pronunciada quando se observam trajetórias profissionais mais qualificadas. Ao comparar trabalhadores demitidos em eventos de demissão em massa com outros de mesma escolaridade, histórico ocupacional e tempo de vínculo que permaneceram empregados, observa-se que, entre aqueles com ensino superior completo, a perda relativa de emprego formal permanece próxima de 20 pontos percentuais no quinto ano após o desligamento. No caso de trabalhadores com vínculos mais longos, especialmente aqueles com mais de 15 anos na mesma empresa, essa diferença chega a ultrapassar 25 pontos percentuais. Esses padrões sugerem que, uma vez ocorrido o desligamento, a principal dificuldade pode não estar na falta de qualificação, mas na escassez de oportunidades compatíveis com o patamar ocupacional anteriormente alcançado, hipótese levantada a partir dos resultados observados no estudo.
Mesmo entre os trabalhadores que conseguem se recolocar, as perdas não se restringem ao acesso ao emprego. Os dados mostram que os salários no retorno ao mercado formal permanecem, em média, entre 3% e 8% abaixo dos observados entre trabalhadores semelhantes que não passaram pelo choque, mesmo cinco anos após a demissão, a depender do perfil analisado.
As desigualdades também se manifestam de forma clara no plano sociodemográfico. Quando comparados a trabalhadores semelhantes que não sofreram o choque, mulheres e trabalhadores em faixas etárias mais avançadas enfrentam maiores dificuldades de retorno ao emprego formal. Mesmo quando conseguem se recolocar, esses grupos tendem a retornar ao mercado em ocupações com menor remuneração, ampliando o risco de perda de posição profissional ao longo do tempo.
Esses achados reforçam uma mensagem central para o debate sobre mobilidade social. A demissão não apenas interrompe o vínculo empregatício, mas pode redefinir o ponto a partir do qual a mobilidade futura passa a ocorrer. Quando o retorno ao mercado se dá em posições inferiores, o choque deixa de ser apenas temporário e compromete a capacidade de manter trajetórias de ascensão ou estabilidade construídas ao longo dos anos.
Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados sugerem que estratégias uniformes de apoio à recolocação tendem a ser ineficazes. Programas de qualificação profissional, intermediação de mão de obra e incentivos à contratação podem ganhar efetividade se considerarem as barreiras específicas enfrentadas por diferentes perfis de trabalhadores.
Compreender como diferentes trajetórias reagem a choques de desligamento em larga escala é fundamental para qualificar o debate sobre mobilidade social no Brasil. As demissões não produzem apenas efeitos imediatos sobre o emprego, mas podem deixar marcas duradouras nas trajetórias profissionais, influenciando as possibilidades de progresso econômico ao longo da vida.