2025 - Edição 87 | 23 de dezembro |
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Novo estudo amplia análise sobre a mobilidade social de dependentes do Bolsa Família |
Resultado de Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com ministério, relatório do Imds acompanha a trajetória de mais de 11 milhões de crianças e adolescentes desde 2005 |
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Ao completar vinte anos, o Programa Bolsa Família continua sendo peça central na estrutura de proteção social do Brasil. Desde sua criação, milhões de crianças e adolescentes passaram a fazer parte de uma geração que cresceu sob o amparo dessa política. Compreender o percurso dessas pessoas na vida adulta é essencial para avaliar as fronteiras e os limites da mobilidade social no País.
Com esse objetivo, o Imds apresenta o relatório “Mobilidade Social da Primeira Geração de Beneficiários do Bolsa Família: Trajetórias e Dinâmicas na Pandemia”, resultado do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Imds e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). O estudo acompanha a trajetória de 11,6 milhões de crianças e adolescentes que eram dependentes do programa em 2005. Utilizando registros administrativos do Cadastro Único, da folha de pagamento do Bolsa Família e do Auxílio Emergencial, o trabalho observa onde essas pessoas estão quase duas décadas depois, identificando seus vínculos com a rede de proteção social até o ano de 2024.
O relatório dá continuidade à agenda de pesquisa iniciada com o artigo “Mobilidade Social no Brasil: Uma análise da primeira geração de beneficiários do Programa Bolsa Família”, publicado em 2023. Nesse estudo, a análise da coorte ia até 2019 e já apontava que parte significativa dos jovens havia deixado os registros da assistência social, com experiências de inserção no mercado formal de trabalho. Agora, com a ampliação da janela de observação até 2024, é possível avaliar com mais precisão a resiliência dessas trajetórias diante de choques como a pandemia de Covid-19.
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O Auxílio Emergencial, implementado em 2020 com mecanismos digitais de autodeclaração, revelou que mais de 1 milhão de jovens da coorte, mesmo fora do CadÚnico em 2019, acessou o benefício naquele ano. Esse retorno seletivo mostrou que muitos dos desligamentos anteriores não correspondiam a uma estabilidade consolidada. A pandemia, assim, funcionou como um marcador das fragilidades latentes em parte das trajetórias que, até então, pareciam indicar mobilidade.
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Nos anos seguintes, a criação do Auxílio Brasil e, em seguida, o retorno do Bolsa Família em 2023 consolidaram parcialmente os vínculos com a rede de proteção. Cerca de 25% da coorte seguiram como beneficiários diretos do programa entre 2021 e 2024. Já mais de 60% permaneceram fora do sistema, mesmo após a reestruturação do benefício, a ampliação dos valores transferidos e os esforços de atualização cadastral. Os dados sugerem que muitos dos jovens desligados mantêm uma relação intermitente com a política social: próximos da linha de elegibilidade, acessam o sistema em momentos de instabilidade, mas permanecem fora dele em contextos de normalidade.
O estudo propõe uma leitura mais dinâmica da mobilidade social, reconhecendo que a superação da pobreza não ocorre de forma linear. As entradas e saídas do sistema de proteção, muitas vezes descontínuas, refletem as transições típicas da juventude e os efeitos de eventos críticos sobre famílias que vivem em limiares estreitos de renda. A permanência no programa após 2023 pode estar relacionada, em muitos casos, a características do domicílio, como a presença de crianças pequenas (priorizadas pelas novas regras) e ao aumento dos valores transferidos, o que reforça o incentivo à manutenção do cadastro, independentemente da condição econômica individual dos jovens da coorte.
Ao documentar essas trajetórias com base em registros administrativos de longo prazo, o estudo contribui para uma visão mais realista da mobilidade social no Brasil. Os resultados indicam a importância de estratégias de acompanhamento que considerem a vulnerabilidade potencial, e não apenas a pobreza medida pela renda, como critério de elegibilidade. Identificar os riscos antes que se concretizem pode ser tão importante quanto responder a eles depois de instaurados.
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A todos os nossos usuários, leitores e amigos do Imds nossos votos de Boas Festas e um Ano repleto de saúde, prosperidade e realizações. Estaremos de volta em janeiro, com a próxima "Carta do Imds"!
Paulo Tafner
Diretor-presidente
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