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Carta do Imds - 05 de Março de 2025
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2025 - Edição 66 | 05 de março

Melhorar a qualidade da alfabetização é reduzir desigualdades e proteger os mais desfavorecidos

Imds apoia estratégias baseadas em evidências que possam fomentar soluções sustentáveis para reduzir desigualdades no aprendizado e ampliar as oportunidades para as crianças

Olá, *|NOME|*

      A alfabetização é um dos pilares fundamentais para o pleno desenvolvimento educacional e social das crianças. Dificuldades nessa fase podem comprometer o aprendizado ao longo da vida, tornando-se um obstáculo à aquisição de outras habilidades essenciais, que poderiam ampliar as oportunidades de desenvolvimento humano e mobilidade social.

    De acordo com o Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2024, a taxa de alfabetização de brasileiros era de 93%. Isto é, em 2022, das 163 milhões de pessoas de 15 anos ou mais de idade, 151,5 milhões sabiam ler e escrever um bilhete simples e 11,4 milhões não sabiam.

      Esses resultados tomados isoladamente poderiam sugerir uma avaliação muito positiva sobre a alfabetização no Brasil. Lamentavelmente, não é isso o que se verifica quando são consideradas as avaliações do processo de alfabetização e de aprendizado infantil. Os resultados indicam exatamente o oposto.

      O conjunto de avaliações do Saeb revela que muitas crianças brasileiras ao final do 2º ano do ensino fundamental não desenvolveram habilidades básicas do processo de alfabetização, a saber: (i) ler palavras, frases e textos curtos; (ii) localizar informação explícita em textos de até 6 linhas, como bilhetes, crônica e fragmento de conto; (iii) inferir informações de textos que articulam linguagem verbal e não verbal, como tirinhas e cartazes.

       Os dados revelam que em 2021 pouco mais da metade das crianças (56%) ao fim do 2º ano estava alfabetizada no Brasil, de acordo com os parâmetros estabelecidos. Vistos de outra forma, os resultados indicam que quase metade de nossas crianças não dispunha dessas habilidades básicas para o desenvolvimento adequado do processo de aprendizado da leitura e da escrita.

      Devido ao impacto significativo da pandemia no aprendizado, a coorte de 2021, que concluiu os anos iniciais do Ensino Fundamental, apresentou um desempenho inferior à de 2019. A avaliação Saeb 5º ano de 2021 indica que 18,4% dos alunos que fizeram o exame não foram capazes de localizar informações explícitas em textos narrativos e informativos curtos, além de não conseguirem identificar o tema ou o personagem principal de um texto. Esses estudantes se encaixam na categoria “insuficiente” e são incapazes de reconhecer a relação de causa e consequência nos textos ou de diferenciar uma opinião de um fato em reportagens. Apesar dos resultados serem preocupantes, 51% dos alunos que realizaram a avaliação foram classificados como “adequados”.

     Se a criança não aprende a ler adequadamente, torna-se incapaz de entender enunciados básicos de um pequeno texto. Por decorrência, apresentam maiores dificuldades de aprendizado de outras disciplinas, de modo que as lacunas de aprendizado vão se acumulando com a idade. O acúmulo de conhecimento é limitado – e consequentemente a formação de seu capital humano – bem como sua capacidade de estabelecer nexos causais rudimentares que lhes permita progressivamente resolver problemas mais complexos e ganhar autonomia de leitura e reflexão.

      O mais grave, porém, é o fato de que essa limitação de aprendizado atinge sobretudo as crianças de lares com menos pais menos escolarizados e de menor renda, fazendo com que as diferenças originárias não sejam superadas e em muitos casos seja até aumentada, limitando a capacidade de mobilidade social e redução das desigualdades.

      Diante desses resultados pouco alvissareiros de nossa educação, torna-se essencial o desenvolvimento de políticas públicas eficazes para a adequada alfabetização e para os mais velhos, tentar mitigar a defasagem de aprendizado e garantir que mais crianças atinjam os níveis desejáveis de aprendizado.

      Um exemplo que ilustra o impacto dessas políticas é o “Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic)” (ver aqui), implementado no Ceará em 2007. A iniciativa, desenvolvida em parceria com o UNICEF e instituições da sociedade civil focou na cooperação entre o Estado e os municípios, oferecendo formação regular para professores, apoio à gestão escolar e materiais pedagógicos estruturados e adoção de métodos de alfabetização comprovadamente eficazes. Além disso, o Paic instituiu avaliações externas, como a Provinha Paic e o SPAECE-Alfa, para monitorar o progresso dos alunos e orientar as práticas pedagógicas. Os resultados mostraram um aumento significativo no desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática nos primeiros anos do Ensino Fundamental.

    O problema dos baixos níveis de alfabetização das crianças brasileiras é reconhecidamente grave e, também, “crônico” – já em 2002, ele foi assim caracterizado em um relatório produzido pelo estado do Ceará que foi uma das bases de uma experiência conhecida entre brasileiros e extremamente exitosa. Esse cenário é alarmante não apenas porque representa um problema educacional na base do aprendizado, mas também porque representa um enorme obstáculo à equidade social e à redução de desigualdades. Para fortalecer a alfabetização e garantir que mais crianças alcancem níveis adequados de aprendizado, o Imds tem se dedicado à implementação de estratégias baseadas em evidências. Por meio do projeto "Alfabetização Baseada em Evidências" (ver aqui), o Imds, em parceria com o Instituto Edube, busca apoiar políticas públicas eficazes, promover formações para educadores e incentivar o uso de metodologias de ensino comprovadamente eficazes. Temos o objetivo de investir na análise de dados educacionais e no acompanhamento contínuo dos resultados, contribuindo para a criação de soluções sustentáveis que possam reduzir as desigualdades no aprendizado e ampliar as oportunidades para crianças em todo o Brasil.

          Até a próxima "Carta do Imds"!

          Paulo Tafner

          Diretor-presidente


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Enviado por Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social – Imds

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