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Carta do Imds - 13 de Junho de 2023
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2023 - Edição 20 | 13 de junho

Bolsa Família: novos estudos dissecam inserção produtiva de beneficiários

Dados divulgados pelo Imds no último final de semana permitem analisar os movimentos de emancipação e de inclusão no mercado formal de trabalho

Olá, *|NOME|*

Na Carta de 30 de maio (releia aqui), tratamos da dependência intergeracional de transferências de renda que acomete parcela substancial de famílias pobres. Nesta, trataremos do outro lado da história: a emancipação e a inclusão produtiva.

Sabe-se, com base em análises do Imds, que a maioria das crianças dependentes do programa Bolsa Família em 2005 havia saído do CadÚnico (64%) até 2019. Mais importante, 46%, em algum momento entre 2015 e 2019 foram encontradas ocupando postos formais de trabalho. A presença na RAIS (postos formais de trabalho constantes na Relação Anual de Informações Sociais) aponta para ascensão social de um grupo que era bastante vulnerável na infância.

O horizonte de cinco anos de observação da RAIS, de 2015 a 2019, não é longo o suficiente para que se possa concluir que a inserção produtiva no mercado de trabalho formal daquelas crianças e adolescentes de 2005 seja definitiva. Contudo, quase um terço dos antigos beneficiários dependentes que chegam à RAIS são identificados em todos os anos (32,2%), e dois terços são encontrados em três anos ou mais (65,8%). Portanto, para a maioria, a formalização da relação de trabalho não é um evento esporádico.

No final de semana passado, lançamos uma nova onda de resultados (painéis de indicadores, apresentação e texto para discussão) sobre a inserção produtiva da primeira geração de dependentes do Programa Bolsa Família, na qual caracterizamos o emprego da coorte de 2005 (aproximadamente 5,2 milhões de pessoas), comparando-a com empregados formais que nunca estiveram em famílias beneficiárias do Bolsa, na mesma faixa etária, entre 2015 e 2019 (aproximadamente 13,2 milhões de pessoas). Ambos os grupos, nesse período, tinham idade de 21 a 30 anos e as análises comparam entre os dois grupos o salário médio, a ocupação, o tempo no último emprego e o porte da empresa onde trabalhou pela última vez . Esta carta descreve os principais resultados desse novo estudo. Em sua edição de domingo, 11 de junho, o jornal Folha de S. Paulo também deu destaque ao conteúdo da pesquisa (veja aqui).

O que falar sobre a remuneração dos ex-beneficiários? Das crianças da geração inicial que foram encontradas ao menos uma vez na RAIS no período entre 2015 e 2019, a maioria (51%) ganha entre um e 1,5 salários-mínimos. Apenas 4,1% ganham mais do que três salários-mínimos.

A análise fica ainda mais interessante ao se comparar os dois grupos. Enquanto 4,1% dos ex-beneficiários ganham mais do que três salários-mínimos, para os não beneficiários essa fração é de 13,3%. Mesmo selecionando apenas ex-beneficiários e não beneficiários com ensino médio completo, trabalhando no Sudeste e que sejam homens brancos, a diferença persiste: no primeiro grupo apenas 6% ganham três salários-mínimos ou mais, enquanto para o segundo grupo a fração é de 11,6%. Se considerarmos apenas homens brancos que possuem ensino superior completo no Sudeste, a fração de ex-beneficiários que ganham três salários-mínimos ou mais é de 35%; enquanto entre não beneficiários é de 57,6%. Ou seja, ter sido beneficiário está correlacionado com ganhar menos, no futuro, no mercado de trabalho formal, mesmo após controlar para as características mais associadas com prêmio de escolaridade (sexo, região, escolaridade e cor).

Parte da diferença salarial é “explicada” por diferenças na estrutura ocupacional dos dois grupos no mercado de trabalho. Por exemplo, ex-beneficiários e não beneficiários com nível superior completo “escolhem” diferentes carreiras na administração pública. Entre ex-beneficiários, a carreira na polícia militar – em especial, cabos e soldados – está entre as 10 ocupações preferidas. Já não-beneficiários com o mesmo nível de escolaridade “preferem” ser oficiais das forças armadas (está entre as 10 com maior frequência neste grupo). Professores do ensino fundamental representam 35% da população de ex-beneficiários com ensino superior empregados na administração pública, enquanto somente pouco mais da metade (19%) no grupo de não beneficiários.

Dividimos a lista de ocupações da RAIS em 10 grupos ocupacionais, enumerados de 1 (que exigem menos qualificação) a 10 (que demandam maiores habilidades cognitivas), identificados assim conforme o salário e a escolaridade média da ocupação. Encontramos uma forte associação positiva entre não ter sido beneficiário e rankings ocupacionais mais altos: para todas as ocupações com qualidade superior a 4, a probabilidade de um não-beneficiário estar ocupado é maior do que aquela dos ex-beneficiários. O inverso é verdadeiro para todas de qualidade 4 ou menos.

Nossos resultados indicam que ter sido uma criança em família dependente do Bolsa Família afeta os prognósticos de sucesso no mercado de trabalho. É menos claro porque isso ocorre, embora seja possível elencar algumas hipóteses. Primeiro, é muito provável que famílias muito pobres tenham estoques de capital humano, cultural e social bem menor do que não pobres. Todas essas dimensões de capital são transferidas para as crianças desde muito cedo, de diversas maneiras, e continuam a exercer uma influência enorme em todo o ciclo de vida futuro. Em particular, com relação ao capital social, parece plausível que crianças mais pobres não tenham acesso a uma rede de contatos que viabilizaria uma maior mobilidade social – e sabe-se que o acesso a algumas posições profissionais é, muitas vezes, mediado por indicações de conhecidos. Segundo, e tocando ainda no capital social, aspirações profissionais dependem de referências de sucesso, e estas são determinadas pela rede de interações disponíveis durante a infância e a juventude. É possível que crianças mais pobres tenham tido referências de sucesso que trabalhavam em ocupações de menos status, o que poderia ter uma influência grande sobre suas próprias escolhas por ocupações similares – mesmo quando poderiam ocupar empregos mais bem remunerados. Por fim, crianças pobres tendem a estudar em escolas de pior qualidade – sabe-se que o sistema educacional brasileiro é altamente segregado em termos de renda e, em média, a escola pública é pior do que a escola privada. Isso significa que, apesar de terem o mesmo “nível” de escolaridade, ex-beneficiários teriam menos cultura e conhecimento, o que se manifesta no mercado de trabalho na forma de ocupações com menor status e salários mais baixos.

O material ora disponibilizado no site do Imds apresenta um amplo leque de informações a ser saboreado.

Boa leitura e até a próxima Carta!

Paulo Tafner

Diretor-presidente


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Enviado por Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social – Imds

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