| Olá, *|NOME|* Apropriar-se adequadamente da capacidade de ler é condição essencial para que crianças possam atingir todo o potencial de suas vidas. Infelizmente, os dados mais recentes sobre o aluno representativo de escolas públicas apresentam um cenário extremamente desanimador quanto à qualidade da alfabetização e à fluência da leitura das crianças brasileiras. A última Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) foi realizada em 2016 e revelou, por exemplo, que ao final do 3º ano do ensino fundamental apenas metade dos alunos era capaz de ler e interpretar o significado de um texto curto. Uma das condições fundamentais para que as habilidades de leitura se desenvolvam de forma adequada durante a infância é uma alfabetização de qualidade, que permita ao aluno conectar, de forma cada vez mais eficiente, as partes constitutivas da linguagem escrita --letras, sílabas e palavras-- à forma natural pela qual o pensamento nos aparece desde bastante cedo: a voz. Já há, documentadas na literatura especializada sobre o tema, evidências do impacto de experiências exitosas na construção dos pilares de uma boa alfabetização. Há alguns programas que atuam sobre as famílias de modo a capacitá-las e outros que agem diretamente sobre as crianças de modo a fornecer estímulos valiosos na formação das capacidades iniciais de leitura, que aumentem seu preparo para o início do processo de escolarização formal, como o Ready4K, implementado nos anos letivos de 2013-2014 e 2015-2016 em São Francisco, California (EUA). O Ready4K teve por foco alunos de 4 anos na pré-escola, em centros públicos de educação infantil, e baseou-se no envio de mensagens de texto SMS aos pais ou cuidadores. Essas mensagens estimulavam o envolvimento entre os pais (cuidadores) e as crianças para desenvolver uma ampla gama de habilidades relacionadas ao letramento inicial e à alfabetização, incluindo reconhecimento de letras maiúsculas e minúsculas, reconhecimento do som das letras, consciência fonológica, consciência de rimas em cantigas, escrita de nomes próprios, compreensão de histórias e vocabulário. Ao final dos 8 meses de implementação, o programa foi bem-sucedido em melhorar indicadores de desenvolvimento da linguagem nas crianças. Há também os programas que agem diretamente nos currículos educacionais em língua no início do processo de alfabetização. A partir de 2006, na Inglaterra, foi implementado o Communication, Language and Literacy Development, de implantação mandatória em todas as escolas públicas inglesas. A iniciativa tinha como objetivo a promoção de práticas pedagógicas efetivas de alfabetização e letramento. O programa forneceu apoio financeiro para a contratação de consultores pedagógicos para as redes educacionais do país, em um esforço sistemático de disseminar práticas de alfabetização baseadas na instrução fônica. Os serviços prestados pelos consultores pedagógicos envolveram uma auditoria inicial, (incluindo observações das práticas correntes de alfabetização e avaliações diagnósticas detalhadas das crianças) e a elaboração de um plano de ação. Além disso, os consultores deram treinamento a professores e os orientaram sobre como planejar mais oportunidades efetivas de aprendizado. Foram documentadas, na literatura especializada sobre o programa, impactos positivos sobre indicadores de leitura, especialmente para os alunos mais pobres da população de interesse. Observando países pobres com realidade de background familiar das crianças mais próxima à brasileira: em Uganda, por exemplo, reformulações no currículo educacional de alfabetização, implementadas e testadas a partir de 2013, apresentaram resultados igualmente animadores sobre indicadores de aprendizado (ver aqui). Uma classe alternativa de programas tem por foco alunos que já passaram pelo início da escolarização formal e não obtiveram as capacidades básicas para se tornarem leitores fluentes. É o caso do programa de tutoria em alfabetização e letramento para alunos com defasagens de aprendizado implementado a partir de 2015 em escolas públicas de Manizales, na Colômbia (ver aqui). Os alunos participaram de sessões de instrução individualizada, fornecidas durante o horário escolar regular, para pequenos grupos. Após um semestre letivo de operação, o programa teve sucesso em aumentar as notas em um exame padronizado de leitura. Um ponto interessante é que não foram encontrados efeitos estatisticamente significantes na nota da parte do exame que media a capacidade de compreensão do texto lido, o que sugere ser particularmente difícil alçar crianças defasadas ao status de boas leituras. Nesse sentido, parece mais efetivo investir na formação de bons leitores no início do processo de escolarização do que tentar recuperá-los. Crianças que leem mal incorporam de forma parcial e inadequada os conteúdos da base curricular, e esse problema se agrava exponencialmente à medida que o aprendizado passa a depender da leitura de textos cada vez maiores e de significado cada vez mais complexo. É natural, assim, que a má leitura atue como uma barreira à formação de habilidades que poderiam sustentar uma transição mais produtiva da escola para o mercado de trabalho, tendo consequências graves para o aproveitamento de oportunidades de desenvolvimento humano e para a mobilidade social. É urgente para o país considerar de forma sistêmica os problemas da alfabetização e letramento, apoiando-se na melhor evidência científica disponível. Até a próxima “Carta do Imds”! Paulo Tafner Diretor-presidente |