| Olá, *|NOME|* O que os temas juventude, demografia e produtividade têm em comum? O Brasil tem passado nas últimas décadas por uma das mais radicais mudanças na pirâmide demográfica de que se tem conhecimento. Dois fatos se destacam. Primeiro: em 1980, o País tinha 45,3 milhões de crianças (pessoas com 14 anos ou menos) e 7,2 milhões de idosos (60 anos ou +). Em 2020 – quarenta anos depois - de acordo com as projeções do IBGE, o número de idosos (60+) chegou a 29,3, enquanto o número de crianças foi 44,3 milhões. Na próxima década o número de idosos será maior do que o de crianças. E isso ocorrerá daqui a nove anos, em 2032. Em 2060, serão 73,6 milhões de idosos e 28,3 milhões de crianças. Segundo: em 2023, o número de pessoas em idade ativa (de 15 a 59 anos) deverá superar em 61 milhões a soma de crianças e idosos. Esse excedente, chamado bônus demográfico, já foi de 63 milhões em 2017 e será de apenas 14 milhões em 2060. Duas estatísticas relevantes entre demógrafos dizem respeito à percentagem de idosos na população. Entende-se havendo até 10% de idosos no total da população, então o país pode ser considerado jovem. Por outro lado, quando essa percentagem atinge 30% então o país pode ser considerado idoso. O Brasil fará essa transição (de menos de 10% para mais de 30%) em menos de 50 anos. Dentre os 100 países mais populosos seremos a 9ª transição mais veloz. E fazemos isso sem termos superado o estágio de país de renda média. Para que o envelhecimento do País não se transforme em empobrecimento, pelo menos dois fatores são fundamentais: o aumento da proporção de pessoas que trabalham dentre aqueles em idade ativa e o aumento da produtividade entre aqueles que trabalham. Atualmente, sexo e escolaridade são determinantes tanto da taxa de ocupação (probabilidade de estar empregado) quanto da produtividade. Apenas 58% das jovens (entre 25 e 29 anos) com ensino fundamental completo ou médio incompleto estão na força de trabalho, comparado a cerca de 87% entre as jovens com ensino superior ou mais. A produtividade dos trabalhadores jovens, por sua vez, quando medida pelo salário médio, aumenta muito com a escolaridade: quem tem ensino superior ganha 89% mais do que quem tem apenas o ensino médio completo. Assim, a baixa escolaridade de parte substancial da população em idade ativa limita o Brasil de bem aproveitar o bônus demográfico. Jovens em famílias cujos responsáveis têm pelo menos ensino superior são muito mais escolarizados do que aqueles pertencentes a lares onde o responsável tem no máximo fundamental incompleto. No primeiro grupo, a maioria tem ensino superior completo; no segundo, ensino médio completo (o que é uma evolução em relação a vinte anos atrás, mas insuficiente para a qualificação necessária em uma economia cuja matriz tecnológica evolui rapidamente e exclui pessoas e países que não acompanham o ritmo da fronteira tecnológica). E qual a capacitação que o ensino básico brasileiro está dando a seus jovens? Na prova de matemática do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, aplicada a jovens de 15 anos de idade), apenas 4% dos adolescentes brasileiros de famílias de nível socioeconômico baixo tiraram nota acima do adequado para aquela idade, comparado com 44% daqueles provenientes de camadas mais privilegiadas. Enquanto os cidadãos mais pobres recebem uma educação parecida com a que recebem os indonésios e marroquinos mais pobres, aqueles mais abastados têm nível de conhecimento de matemática próximos aos seus pares chilenos. Como se não bastasse, o ritmo de melhora da qualificação da força de trabalho brasileira não é compatível com o aproveitamento da janela demográfica que se apresenta. Em 10 anos, entre 2009 e 2018, as notas do Brasil no exame de matemática do Pisa ficaram estagnadas. Nesse período, o gasto público com ensino básico aumentou consideravelmente. O bônus demográfico passará. O país que um dia foi “do futuro” será idoso e pobre em pouco tempo. E com baixa mobilidade social. Evitar esse destino passa necessariamente pela inclusão produtiva dos filhos dos mais pobres, o que só será possível com uma transformação radical na forma pela qual os conhecimentos são transmitidos nas escolas públicas e nas políticas sociais que complementem o papel da escola. Tal estratégia exigirá uma melhoria sem precedentes da eficiência da máquina pública. Enquanto ainda há tempo. “Principais desafios para a juventude no Brasil”, novo estudo do Imds, apresenta a associação entre mobilidade social, capacitação da mão de obra, produtividade e demografia a partir da ótica dos desafios da juventude. A apresentação também mostra que a mitigação dos efeitos perversos da reversão demográfica no país depende da superação tempestiva de gargalos que impedem a mobilidade social e da maior inclusão produtiva da juventude. Até a próxima “Carta do Imds”! Paulo Tafner Diretor-presidente |