Dentro de poucos dias, os brasileiros voltarão às urnas para escolher, em segundo turno, o presidente da República que governará o país pelos próximos quatro anos. Mais do que uma disputa entre candidatos, a eleição deveria representar uma oportunidade para refletirmos sobre os enormes desafios estruturais que o Brasil terá de enfrentar.
Entre eles, dois merecem especial atenção: recuperar a sustentabilidade das contas públicas e construir uma sociedade em que as oportunidades de progresso econômico e social dependam cada vez menos das condições de nascimento dos indivíduos. Embora frequentemente tratados como questões independentes, esses desafios estão profundamente relacionados.
O Brasil chega a esta eleição com uma situação fiscal preocupante. Segundo dados do Banco Central, a dívida bruta do governo geral, que representava 51,3% do PIB em 2011, alcançou 81,9% em junho de 2026. Mais preocupante do que seu tamanho são a trajetória crescente do endividamento e o elevado custo de seu financiamento.
Quando a dívida cresce persistentemente, aumenta a percepção de risco, pressionando as taxas de juros. Juros elevados, por sua vez, ampliam as despesas financeiras do governo, encarecem o crédito, desestimulam investimentos e dificultam a expansão das empresas e a geração de empregos. Forma-se um círculo perverso que compromete o crescimento econômico e a própria sustentabilidade fiscal.
As consequências sociais são igualmente graves. O aumento dos encargos da dívida restringe os recursos disponíveis para investimentos e políticas públicas. Educação, primeira infância, saneamento, infraestrutura e qualificação profissional passam a disputar parcelas cada vez mais limitadas do orçamento. É precisamente nesse ponto que a sustentabilidade fiscal encontra a questão central da mobilidade social.
O Brasil permanece uma sociedade na qual a origem familiar exerce enorme influência sobre as oportunidades futuras. Dados do Atlas da Mobilidade Social, desenvolvido pelo Imds em parceria com o Prospera Lab, mostram que apenas 8,3% dos filhos das famílias situadas entre os 25% mais pobres conseguem alcançar, na vida adulta, o grupo dos 25% mais ricos. Entre os filhos das famílias pertencentes ao grupo dos 25% mais ricos, 56,5% permanecem nessa posição.
Romper essa persistência exige políticas públicas de qualidade, mas exige também crescimento econômico, investimento e geração de bons empregos.